10 maio 2012

Voyage autour de ma cuisine/Expedition nocturne autour de ma cuisine

Via Flickr:
Pencil and watercolor (Payne's Gray) on sketchbook (leftover paper for engraving - Rives Tradition Cream 250 gm2)

O título, obviamente, é uma brincadeira com os textos de Xavier de Maistre, "Voyage autour de ma chambre / Expedition nocturne autour de ma chambre"
Aqui no Brasil, creio, tenha sido publicado pela Editora Estação Liberdade em pelo menos duas oportunidades, em 1989 e 2008, com capas diferentes. Li-o na tradução de Marques Rebelo, que o verteu para o Português.
A associação entre o texto e o desenho se deveu ao insólito abordado por ambos. Me pareceu tão insólito o texto quanto desenhar condimentos numa cozinha à noite.
Bem... se pode não haver graça no desenho, fica a lembrança da importância do texto de Maistre, considerado por Machado de Assis como seu mestre, aquele que definiu seu estilo. Recomendo sua leitura.

Um comentário:

  1. "Bem...se pode não haver graça no desenho (...) "

    É verdade que este desenho, esta pintura não tem graça nenhuma! Tal como não têm graça as pinturas e gravuras de Giorgio Morandi, ou de Francisco de Zurbaran. Mais do que ter graça a impressão que as suas pinturas causam é bem mais profunda, tal como a tua.

    Tenho a ideia que as chamadas "naturezas mortas" traduzem uma reflexão interior, julgo que são uma espécie de auto-retrato, só que no seu género o que se retrata não é directamente o artista mas as coisas mais ínfimas, íntimas e tão prosaicas quanto anónimas do seu quotidiano. Por isso as naturezas mortas são também um retrato do seu criador.
    A palavra "bodegon" que em castelhano se usa para designar natureza morta, é bem mais ilustrativa do sentimento que transparece dessa difícil arte de identificar e relevar a beleza para lá da sombria banalidade. Bodegon que em português se poderia traduzir por grande adega ou na forma aumentativa como adegão eram e em Portugal ainda são, pois restam algumas, locais de armazenamento de vinho em grandes barris, pipas e toneis onde se podia consumir vinho, ou pelo menos provar vinho. O interior destes locais sombrios, alguns deles em caves e semi-subterrâneos, eram aprazíveis de Verão pela sua frescura e de Inverno por manterem temperaturas que não desciam abaixo de 18 graus centígrados. Nestes sítios que se comportavam como câmaras frigoríficas arcaicas eram também armazenadas frutas, queijos, peças de caça, carne salgada e fumada e guardadas barricas, potes e jarros de cerâmica grosseira contendo conservas de toda a espécie. Havia réstias de alhos e cebolas pendurados e molhos de ervas secas para tempêro e infusões medicinais. Havia alfaias agrícolas velhas, louça fora de moda, etc. etc.
    Estes ambientes de luz filtrada em que havia grandes contrastes de claro-escuro e uma abundante descontracção proporcionada pelo vinho e pela comida terão sido estimulantes para os pintores, tal como foram para os músicos, os que tocavam e cantavam; para os que bailavam; os que diziam versos e narravam histórias; os que diziam gracejos ou simplesmente namoravam.
    As naturezas mortas são assim herdeiras de uma tradição que cultiva a simplicidade e a memória e dão testemunho dessa viagem pelo apaziguamento, pelo conforto e pela alegria vivenciada; são os despojos materiais que resistem à transitoriedade da viagem e atestam, quando toda a gente se foi, que o viajante esteve lá e que as coisas não aconteceram só na sua imaginação.


    Li o "Viagem à roda do meu quarto", mas não li a "Expedição noturna." Sei que o primeiro foi escrito na prisão e é tudo.

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